Aqueles…

Martine Franck-Magnum Photos

Martine Franck-Magnum Photos

Às vezes a vida é mesmo engraçada… Prega umas peças na gente! Traz para perto quem estava longe, leva para longe quem estava perto. Pessoas vão e vêm em nossas vidas. São parte de momentos, de situações, de uma ou algumas estações. Algumas duram mais que dois verões, outras se acabam na queda das folhas de outono ou desaparecem no frio do inverno. Algumas têm cheiro de primavera. São coloridas, vivas, de uma beleza efêmera dentro da gente. Outras têm cheiro de mar, de água salgada, de maresia, sabor de corpos ardendo no calor do verão.

De qualquer maneira, penso que a vida seria muito enlouquecedora se conservássemos todos ao lado. Não haveria espaço para tanta gente, tantas formas de pensar, tantas vontades e tantos desejos. Penso mesmo que as pessoas duram em nossas vidas o tempo que tem que durar. Mesmo que a gente não entenda isso assim tão fácil. Os seres humanos não são lá chegados a perdas, a despedidas. Mas também, para quê se despedir? As pessoas poderiam ir embora simplesmente. Assim… deixando um rastro de perfume e a certeza de que não voltam mais. E a gente ficaria com aquele cheiro durante algum tempo, até que ele fosse apenas a lembrança de um tempo bom que passou.

Mas ainda bem que existem as pessoas eternas. Tá, tudo bem, ninguém é eterno. Mas existem aqueles que você sabe que sempre estarão lá. Aqueles que passaram por tantas estações que a gente nem viu passar. Aqueles que quando a gente se junta não acaba de rir com tanta história para contar. Aqueles com os quais vivemos aventuras, aprontamos loucuras, choramos de tanto rir, e também vivemos algumas tristezas. Aqueles que sempre trazem a luz do sol pra dentro da nossa alma. Aqueles que são o próprio sol dentro de nós. Os que nos fizeram aprender e os que nos escutaram ensinar.

Tem aqueles que deixaram sua marca em nosso livro pessoal. Que toda vez que a gente quer se lembrar, abre naquela página às vezes tão mal escrita, rabiscada, parecendo agenda de adolescente. Mas que traz alguns dos momentos mais incríveis que vivemos. Afinal, a gente lembra bem porque foi que não deu para escrever com mais tempo ou cuidado. Ou então passamos horas lendo com carinho uma ou duas páginas escritas com esmero e atenção. Que a gente cuida para que nunca se rasguem ou os escritos nunca se apaguem.

Bom mesmo é poder voltar de vez em quando e ler essas páginas, ordenar os bilhetes, reencaixar  as experiências. Sem medo de reviver, de voltar atrás, de ter orgulho da história que escrevemos. Saber que ali está o melhor e o pior de nós. Saber que aquelas pessoas levaram um pouco do que temos, mas deixaram um pouco também do que são. E todos nós, sem exceção, nos transformamos em pessoas diferentes a cada encontro e desencontro desse livro maravilhoso chamado viver. 

Flávia Gomes

Conto de uma tarde quente

Calma, gente! Os pensamentos tardam, mas não falham. Desconexos como sempre. Inspirados nas percepções, sensações e no mundo que me cerca. Espero que gostem.

Magnum Photos

Conto de uma tarde quente

Ela precisava de alguém que a tocasse. Mais ainda, de alguém que a fizesse se tocar! Não estava procurando, mas mesmo assim, achou. Ele apareceu meio de contrabando. Uma amiga precisava de companhia. Um passeio divertido e pessoas agradáveis. Apenas isso, nada mais. “Acho que das amigas que eu tenho, você é a que mais tem a ver com ele. Você é fina, gosta de coisa boa, ele também.” Risada. Agradeceu o elogio dela. Pensou um pouco e acabou cedendo. Afinal, as coisas não estavam assim tão boas e um passeio com gente interessante seria bem vindo. Era uma mulher casada, mas não morta, pensou. Foram ao encontro dos rapazes.

A amiga já tinha um cacho, que estava mais para uma penca. Penca de problemas que ela não enxergava. Mas quem está apaixonado fica mesmo cego, então melhor deixar pra lá. Um dia ela acaba descobrindo. O que de fato, tempos depois, aconteceu. Mas voltemos ao passeio. Chegou, olhou nos olhos, gostou do que viu. Foi muitíssimo bem tratada. Ele parecia ser mesmo diferente. Alguns goles de vinho, uma boa música, um papo descontraído. Mas quem olhasse bem, poderia perceber uma forte energia no ar. Coisa que nem querendo, se consegue explicar. Algo bateu logo de cara, de imediato. À medida que a conversa fluía, iam descobrindo coisas em comum, gostos parecidos, planos do que fazer ou onde ir em próximas saídas.

Às vezes as mãos dele tocavam nela. Sentia um arrepio. Primeiro era de leve, quase meio sem querer. Depois o toque era mais intenso, proposital mesmo. O clima favorecia. O olho no olho não negava. Ela não escaparia daquela situação. Foi começando a ficar preocupada. Lembrou que o marido esperava em casa. Mas o arrepio insistia em rondar a espinha. Tentou relaxar. Foi em vão. Os olhos dele eram tão penetrantes que não havia como não se deixar levar. Ainda eram do mesmo signo. Forte, incisivo, sensual até debaixo d’água. Isso! Água. Como não pensou antes? Era um bom jeito de espantar todo aquele calor que subia pelo corpo. “Vou dar um mergulho”, anunciou. “Isso, vai lá, você vai gostar”, ele incentivou. Fez mais. Ciceroneou. Era o dono do pedaço e quis deixar a moça confortável, à vontade.

A água estava deliciosa. Mais fria que o corpo dela, que àquela altura, desejava o que não ousava pensar. Mas ele sabia o que ela sentia. Era o que ele sentia também. Vontade incontrolável de chegar mais perto, de respirar junto, de se encontrar num beijo quente e apagar o que estava queimando. Entrou na água logo depois dela. Agora não tinha mais para onde correr. Ele veio como quem não quer nada, mas querendo tudo o que pudesse ter. Foi chegando cada vez mais perto, até que colou. Colaram em um beijo sem precedentes. Sensualidade à flor da pele. Muita química para deixar arder. Pensou no marido. Mas que nada! Ele não andava lá merecedor de tais pensamentos em horas tão inconvenientes. Lembrou das poucas e boas que a havia feito passar. Era o que faltava para se entregar de vez àqueles lábios profanos que lhe invadiam a boca de um jeito tão único, tão urgente.

Sentia que ele tirava dela, coisas que ela achava esconder. Coisas que ela pensava estarem guardadas. Agia como se dissesse que ela era uma MULHER, não apenas com o “M” maiúsculo, mas com a palavra toda, e que, fora dali, não estava sendo tratada como tal. Descobriu coisas que ela acreditava guardadas no fundo de gavetas mofadas e empoeiradas pelo tempo, pelo desuso. Naquele fim de tarde incrível, trouxe à tona a essência que ela guardava trancada em um baú. Lacrado por dores, acomodações e desamores.

Ele tinha mãos teleguiadas. Não eram mãos de polvo, como eram as da maior parte dos homens. Só caminhavam onde a tocava, onde a fazia sentir. Ele falava coisas que ela precisava ouvir. E não soavam como cantadas. Tinham a autoridade de um espelho que só mostra a verdade. Uma verdade que ela nem lembrava mais onde existia. Até que as palavras dele começaram a fazê-la corar. O calor já havia subido demais, alcançava o último grau. Estavam tão quentes que um termômetro indicaria febre, na certa. Ela gemia debaixo de suas mãos. Baixinho, pra ninguém ouvir. Disfarçadamente, para ninguém perceber. Foi levada ao êxtase. Chorou. Não acreditava que depois de tanto tempo comendo arroz e feijão, estava provando um prato tão exótico e apimentado. Mas não quis entregar os pontos. Segurou do jeito que pôde.

Na hora de ir embora, ele deu o telefone dele para ela. Presunção? Não. Horas de vôo. Desconfiança de que ela não pudesse receber chamadas a qualquer instante. Quase uma adivinhação. Aquele telefone ficou gravado no celular durante um longo período. Mas ela nunca ligou. Havia gostado tanto, que o medo a impediu de viver a história que se desenhava. Voltou para casa tão feliz e assustada que naquela noite foi deitar cedo na esperança de que aquela doce sensação não fosse embora tão rápido. Ficou com aquela tarde quente gravada na pele. Sabia que se mexesse naquele vespeiro estaria perdida de vez. Acabou voltando à vida normal aos pouquinhos. Mas as palavras nunca deixavam de martelar sua auto-estima. Sempre que queria lembrar, buscava aquele número no celular. Até que um dia se tocou. Mas… isso já vai ser história para um outro conto, para uma outra página, para uma outra tarde.

Flávia Gomes

Especiais

Mudando totalmente o papo. Bem, talvez nem tanto assim. Afinal, os sentimentos fazem parte da mesma raiz. A nossa! A de cada um de nós. Únicos e exclusivos seres no mundo. Tem uma música, que eu acho incrível, que é Boa sorte/Good Luck da Vanessa da Mata e do Ben Harper. Todo mundo diz que eu sou mesmo doida, porque a música fala de um tremendo pé na bunda (vixe, e eu disse que ia mudar o tema!), mas eu adoro! Especialmente a versão remixada. Fazer o quê? Acho que não aprecio mesmo coisas fáceis e comuns… O fato é que a música tem uma frase espetacular, que diz que existem muitas pessoas no mundo e a gente sempre acha que aquela que se foi era a mais especial, mas no mundo, há muitas especiais. A frase aparece em dois momentos, em português e em inglês, mas eu prefiro a dita cuja em inglês. Além da voz do Ben Harper ser mais sexy, ele explica mais o que a frase diz. Olha aí: “There are so many special / People in the world / So many special / People in the world / In the world”. E nem vem que eu não vou traduzir. Prefiro na língua dos bretões e ponto.

Isso não é uma beleza? Existem tantas pessoas especiais no mundo. E o bonito da vida é estar sempre descobrindo isso. Uma pessoa vai, mas outra pode aparecer. Quando você menos espera (aliás, cá pra nós, aquelas que aparecem quando a gente nunca espera é que costumam ser as melhores!), dobra a esquina, dá um olhar mais demorado e pode ser alguém. Ficando em casa curtindo fossa é que nunca vai mesmo achar nada, nem ninguém. O mais sábio nessa nossa vida louca é a gente se permitir. Deixar as coisas acontecerem no nosso caminho. Claro que se não for bom, o certo mesmo é chutar pra bem longe. Ninguém aqui está pedindo que você empurre nada com a barriga. Deus nos livre disso!

E eu não estou aqui apenas falando de homem x mulher. Amigos são pessoas especiais (alguns, é certo, só trazem problemas, mas podem ser bons para quando você quer falar dos seus problemas). Família boa, por perto, compreensiva, que dá espaço, também é feita de pessoas especiais. Gente que não sufoca, que aceita, que entende, mais pessoas especiais. Alguns amores que se foram também o são. Mas outros que estão chegando também podem se tornar. É só a gente deixar, se permitir. Se veio e é bom, cabeceia ou chuta para o gol. Ficar parada e levar um olé é que não dá pra engolir!

Lá fora tem sol, lua, estrela, lago paranoá, parque da cidade, rua, amigos, baladinhas e baladonas, drinks - que em tempos de lei seca estão meio escassos, mas nem por isso proibidos - música pra dançar, pra ouvir e pra cantar, lugares especiais, pessoas especiais e o que mais você se permitir descobrir e encontrar. Aqui dentro também é legal. Tem descobertas nossas, só nossas, tem momentos introspectivos, papos com amigas, quando as irmandades se juntam, então… Tem apoio, trocas, confidências que fariam corar até o libertino Marquês de Sade, dicas, truques e conselhos mais que úteis, assim como também os completamente inúteis.

Tem vida! Onde quer que você vá. Onde quer que deseje ficar. Descubra seu momento e siga a sua estrela. Cada um de nós tem uma. Cabe a você dar o brilho que estiver a fim de dar. Cabe a você polir ou deixar enferrujar. Acenda sua luz, solte os bichos, cante em voz alta as suas músicas preferidas. E, finalmente, tenha a certeza de que VOCÊ é a única pessoa que importa nessa vida. Longe de soar egoísta, mesmo com meu lado escorpiano aguçado, mas já vivi o suficiente para entender que se você não está bem aí dentro, nada, nem ninguém estarão bem ao seu redor. Isso se chama energia. Eu não sei como ela funciona, mas que existe, ah, isso existe. Coloque a sua pra girar!

Flávia Gomes

Pensamento que não é meu, mas é quase como se fosse! rs

Nunca postei pensamentos dos outros por aqui, mas sempre tem uma primeira vez pra tudo! Recebi esse texto por e-mail e achei muito bom. E como estamos em fase de encerrar o assunto (Última variação sobre o mesmo tema que o diga…), divirtam-se!

SOFRER POR AMOR: LUXO OU LIXO?

Outro dia me perguntaram como se cura dor de amor. Ah, gente, não sei. Realmente não sei. Me desculpem. Se existisse fórmula seria fácil. Mas não tem. E a única coisa que a gente não quer saber é de fórmulas quando o coração está em pedaços. Não adianta alguém falar ‘vai passar’ porque a única resposta que me vem nessas horas é uma pergunta: QUANDO? E ninguém sabe o tamanho do tempo e a gente acha que o mundo acabou, que o amor é marketing, enxerga qualidades onde a pessoa (aquela ingrata!) não possui e se vê num questionamento interior que não tem fim (e muito menos respostas): por quê? Onde errei? E outras que nem preciso enumerar porque são sempre as mesmas. Só muda o objeto do amor e a intensidade do sentimento. Você pode ter conhecido a pessoa há uma semana mas tem certeza que é o amor da sua vida, a razão de tudo, a tampa da sua panela. Ah, então tá. E as amigas te consolam, a maquiagem borra e todo mundo come chocolate junto, enquanto a frase que mais odiamos ecoa no ar ’se o sujeito não te quer é melhor você ficar sem ele’. Ai, hora do choro aumentar! Pra amenizar, alguém diz que a atual do cara é uma sonsa. Han? Como assim? Você vai dizer: antes tivesse me trocado por alguém melhor do que eu! Estou certa? Pois é. E você sofre. Faz drama. Drama, não, dramalhão. Afinal você ama aquele filho-da-mãe de uma figa que deixou seu orgulho ferido e sua auto-estima no chão. E a gente esquece os defeitos dele, esquece que ele tem manias estranhas e esquece também que, no fundo, não via muito futuro pra vocês dois. Verdade? Não, nessas horas nada é verdade. Sofrer por amor cega, dá uma super inspiração e deixa nossas mães preocupadas, essa é a única verdade. Eu já tomei pés-na-bunda consideráveis e acho que se a Jeniffer Aniston pode, quem sou eu pra fugir da regra. Já me disseram NÃO e nem por isso sou menos inteligente, menos legal, menos louca, menos linda, menos tudo, menos nada. A única coisa que tenho certeza é que eu NÃO ERA a pessoa certa pra aquele cara. Pelo menos naquele momento. Olha que simples. E sem aquela teoria furada de que o moço tem medo, algum trauma de infância e signo complicado. Quando a gente quer de verdade - meninas, acordem! - a gente vai até o inferno, desfaz casamentos, paga pra ver, apela para a baranguice e canta ‘Baby, come back’ debaixo da janela. Porque o amor é brega. E disso ninguém escapa. Então, vamos aproveitar nosso minuto de lucidez (enquanto não caímos na teia do amor de novo) e aprender de uma vez por todas: não é pra gente se achar um lixo quando um amor acaba. Não é pra gente imaginar que a atual do seu ex é perfeita (acredite: elas nunca são). E definitivamente não é pra gente confundir orgulho ferido com amor. Afinal a gente não vai amar uma pessoa que não ama a gente. E ponto. p.s: o sofrimento é inevitável, mas o luxo é opcional.
Texto: Fernanda Mello

Última variação sobre o mesmo tema

Um encontro inusitado
um coração assustado
uma vontade de deixar para trás o passado

um monte de coisas na bagagem
um desejo de ser tudo de verdade
uma vontade louca de nunca acabar essa viagem

um vendaval que sopra lá fora
e aqui dentro tudo tão natural
como não chorar sem sentir o gosto do sal?

força para seguir adiante
descobrir onde o medo se esconde
e rezar pra não ter essa dor como acompanhante

viver o que for bonito
acreditar no que for sincero
e ser feliz, porque ser triste…
ahh, isso eu não admito!

Flávia Gomes

A moça e o cachorrinho

 

Noites quentes… Saudade de alguém que se foi mas que ainda está aqui dentro. Dor que não cessa, que não quer ir embora. Por mais que a enxote, expulse, empurre para fora. A imagem de uma moça triste segurando um cachorrinho pela mão.

Fico pensando sempre no aprendizado da vida, nas situações que passamos, nos desencontros que vivemos. Nas coisas que perdemos por medo de amar, de se entregar, de ficar cego e não poder mais olhar para trás.

A proteção de corações blindados. O medo de se jogar no desconhecido. É mais cômodo apostar no que já se viveu. Garantia de felicidade? Nem sempre. Às vezes é só mesmo a falta de coragem para arriscar, jogar para fora o que ficou no passado e viver uma nova página, escrever em uma nova folha, fazer um novo final. Mas cada um é cada um. E quem pode saber o que vai nas insondáveis profundezas de um coração?

Crescer dói mesmo. Ninguém disse que era fácil. Saudade do tempo de menina. Pés descalços, cabeça vazia, coração leve. Por que as pessoas querem tanto crescer? Se soubessem o quanto é complicado o mundo dos adultos… Ficariam para sempre menininhos e menininhas de calças curtas e pés no chão. Chorando quando alguém lhe rouba um brinquedo ou sorrindo de doer a barriga ao pregar uma peça em algum dos complicados adultos. Com a inocência de quem não sabe o que são armações, dores, jogos de amor que sempre machucam ou decepções que trazem um buraco escuro onde não se enxerga o fim.

Só dá mesmo vontade de ficar quietinha, calada, enrolada como um caracol, ou um tatu-bola que ao menor sinal de ameaça, entra na concha ou se vira em uma bola protegido pela carapaça que o esconde. Guardar tudo ali, até que a caixa de lembranças possa ser aberta novamente. Sem sentir mais dor, com novas esperanças, pronta para um novo começo (ou quem sabe um novo final!).

E a mocinha passeando com o cachorrinho ainda está lá. Parece que fica para lembrar daquilo que ainda não quer se esquecer…

Flávia Gomes

Mais um encontro (e talvez menos uma dor)

E o sentimento insistia em permanecer ali… Mesmo depois da chuva ter caído. Mesmo depois da noite nublada, dos sonhos desfeitos, do dia frio. O amor não queimou até o fim. Na verdade estava ainda muito longe disso. Ela sonhava de um jeito que a fazia sentir muita dor. Quis conversar. Na tentativa de fazer doer menos. De chorar mais baixinho.

Mais uma vez se desnudou. Despiu a vergonha e falou. Ou será que não falou? No fundo acho que foi apenas mais um sonho. Um sonho de encontrar alguém. Exatamente como ela queria, exatamente como ela desejava. Mas será que era mesmo? Estava ali quem ela pensou que fosse?

Ela estava certa. A impossibilidade de estar completa lhe diminuiu as chances. Isso não era apenas um pensamento, uma idéia. Era seco e real. Fez falta, muita falta. Um desejo que por algum tempo demorou para se materializar. Por que não ardeu? Por que não deixou queimar? Por que não foi até o fim? Mais questionamentos se juntaram aos já antigos tormentos.

E com que armas ela poderia lutar? Não deixaram nada para que ela pudesse atacar. Nem mesmo disseram que ela podia atacar. Mas ninguém entendia. Era uma guerreira, de armadura, capa e espada. Mas ali, não era nada. Naquele cenário nada podia fazer. Onde estava sua alma lutadora? Talvez não aparecesse, por pensar que o adversário era mais forte, mais poderoso. Talvez até fosse, mas ela também sabia que a perda maior não era dela. Que a dor maior não pertencia a ela. Que o futuro obscuro passava bem longe dela.

Mas disse que não ia esperar. A vida não espera. Um amor que nem tinha idéia da força que tinha, que poderia ter tido, que ainda poderia ter. Se tivesse a menor faísca de noção, teria vestido a armadura e iniciado a luta com o brado dos guerreiros que não desistem, que não se entregam. O tempo constrói as histórias. As decisões erradas as destroem. Será possível reconstruí-las? Ou os castelos serão ruínas que apenas lembrarão que ali já houve um tempo de prosperidade?   

No fim de tudo, só o que ela desejava era mandá-lo para a gaveta das boas lembranças. Para tirá-lo de lá num dia frio, numa tarde chuvosa qualquer e sorrir. Sorrir como quem sabe que já foi amada. Lembrar como quem tem a certeza de que um dia já encontrou o sentimento mais puro. Alguém que já desejou arder sem sequer ter tempo de pensar no futuro.

Flávia Gomes

Domando Cavalos

Paulo Coelho disse uma frase em um de seus livros. Sem juízo de valores, por favor, caros leitores. Mas essa frase nunca saiu do meu pensamento. Ei-la: “As emoções são cavalos selvagens e em nenhum momento a razão conseguirá dominá-las por completo.” Durante muito tempo essa frase me martelou sem parar. Em algumas fases da vida eu a compreendia. Depois achava que não. Algumas vezes minha razão tomou as rédeas e domou os cavalos sem dó. Outras vezes nem que eu quisesse, conseguia alcançar aquelas crinas…

Os sentimentos nos pregam peças. Fogem ao nosso controle. Será que dá pra ser racional no amor? Mas em quem temos que pensar primeiro? Em nós? No outro? Depois de muitas tentativas de domesticar esses animais (não o homem, mas os sentimentos e emoções), cheguei à conclusão de que o melhor é pensar em nós mesmos. O outro sempre vai nos desapontar, decepcionar. Algumas vezes até nós nos decepcionamos com nossas reações, o que dirá alguém que não conhecemos, não dominamos!

A vida é apenas uma. Não há muitas chances para encontrarmos pessoas que valem a pena. Se você escuta o sinal, esquece tudo e vai. Se põe na balança e vê que é bom, compre. Ouse, viva, experimente. Esteja aberto à vida. Esteja aberto a coisas diferentes. Esteja aberto à felicidade. Quem se abre para as oportunidades pode até não ser mais feliz, mas vai saber que não deixou nenhuma chance para trás.

A chuva começa a cair. Pouco a pouco vai molhando o que estava seco, sem vida. Tudo renasce. Volta a ter cheiro de verde, cheiro de flor, cheiro bom de casa do interior. Traz de novo esperanças de vida nova. De terra fértil. De campo pronto para ser plantado, cultivado, colhido.

Dia bom para ler poesias. Noite boa para criar poemas. Sonho bom para viver em verso e prosa. Cavalos selvagens. Domadores hábeis. Sabedoria que sabe escutar o som do amor. Que sabe traduzir para a língua que for. Que sabe transformar dor em experiência. Que sabe encontrar o ponto da virada, o exato instante da transformação. O elo perdido da civilização, a transmutação dos alquimistas. O exato momento onde os cavalos selvagens, passam a ser o seu maior companheiro pela vida afora…

Flávia Gomes

Tem gente que precisa

Tem gente que precisa perder para saber o que deixou de ganhar.

Tem gente que precisa sofrer para só depois saber amar.

Tem gente que é levada pelo vendaval no mesmo instante que ele passa.

Tem gente que não consegue explicar por que faz o que faz.

Mas também tem gente com cheiro bom que gruda na pele.

Tem gente com beijos de saudade, de felicidade, de sonho fresquinho e cremoso.

Tem gente ingênua, seja lá como for.

Tem gente que deixa, logo de cara, uma marca densa, em alto relevo.

O sorriso é o mais sincero que já vi.

Um jeito meigo e cativante de agir e de fazer sentir.

As palavras parece que têm ligação direta com o coração.

Olhos atentos, instigantes e esperançosos de poder ser feliz.

Gente que faz a gente pensar que só existe no mundo felicidade.

Gente que faz a gente acreditar que um único momento é eterno.

Gente que arrasa nossos melhores sonhos.

Gente que obriga a gente a experimentar um veneno lento e doloroso…

Gente capaz de provar que a gente pode se apaixonar.

Gente que não tem pedra no lugar do coração.

Gente que mostra o quanto se pode ir mais longe.

Gente que a gente não precisa perder para descobrir o quanto é importante pra gente…

 

Flávia Gomes

Sentindo um gosto de sal

 

Ela sentiu uma urgente necessidade de fechar os olhos e dormir. Para que até o dia seguinte nenhum pensamento pensasse. Nenhuma dor doesse. Nenhuma lágrima caísse. Quem foi que disse que não doía? Pois doeu, apertou, até sangrar, sangrou. Mas já? Como assim? Mas não foi ontem que tudo começou?

Sentiu vontade de ignorar tudo aquilo, sair correndo pela rua, até chegar naquele prédio, naquela porta, naquele coração… Arrancar todos os cabos, todos os fios, todas as pontes e todas as imagens que ainda o ligavam ao passado, que ainda o mantiam vivo e pulsante dentro daquela caixa fechada. Fechada? Talvez nem tanto assim. Acho que ‘Pandora’ não quer ficar trancada. Sussura bem baixinho para que a deixem sair.

Quanto a ela, acabava de entrar, mas era ali que desejava ficar. Desejo tão forte que não sabia de onde vinha. Começou ontem, mas parecia que já fazia uma vida. Que sensação era essa que agora parecia estar fora de lugar? Bagunça. Muita confusão na cabeça, na alma, no coração.  Um encontro como esse não podia ser ilusão. Muito menos se transformar em solidão.

Doce encontro de dois. Em que momento se olharam? Onde a admiração se transformou em algo mais? Qual o exato instante que tiveram a certeza do que queriam? Tantos passos dados. Tantos carinhos trocados. E agora o gosto de sal.

Desafios, incertezas, dúvidas. Mas que apareciam junto da vontade, de uma certeza que não pode estar errada, de uma página escrita que não pode ser apagada. De um desejo imenso de que tudo fosse grande, bonito, colorido e doce. Mas que agora, também se mostrava amargo.

Uma vontade de dizer o que não disse. De fazer sentir o que ainda não fez. De mostrar o que não se enxergou. De ficar de mãos dadas, escutando o barulho que faz lá dentro. Vontade de fechar os olhos e enxergar estrelas cadentes. Fazer um pedido. De que tudo voltasse a ter o brilho de um diamante. De entrar um no outro e ouvir o som do coração. De abrir os olhos e ainda encontrar lá, no mesmo lugar, a certeza do caminho que escolheu para caminhar.

Flávia Gomes