O químico e a jornalista

B&F_alterado

Entre fórmulas, laboratórios, novas e estranhas substâncias ele vivia. Em um mundo só dele, com seres que só a ele pertenciam, ele habitava. Decepções, desilusões, futuro incerto e distante. Mil criações, malucas invenções e solidão. Era um mundo único, de alguém que não se furtava a viver intensamente.

Entre textos, idéias loucas, entrevistas e muitos sonhos ela se escondia. O mundo lá fora era divertido, ela sabia e vivia, mas sempre acabava voltando para o canto dela. Era dela, pertencia apenas a ela. No meio de câmeras de TV, laboratórios de rádio e sentimentos expostos ela habitava. Muitas idéias, novos projetos e solidão…

No encontro de uma dessas paralelas que são cruzadas inesperadamente por uma outra linha reta (ou seria bem torta?), eles se encontraram. Charme, olhares sedutores, mas nada que indicasse um dia de amanhã. Só que já estava traçado, tudo já havia sido preparado. E eles seguiram alheios à vontade suprema.

No dia certo que seria o dia mais esperado, se encontraram. Ela estava lá, ele também. Receberam a ajuda de um componente especial que veio enluarar a noite escolhida para ser o prelúdio de tão grande amor. Não ficaram juntos, mas não deixavam de pensar um no outro um só minuto.

Até que o químico convidou, a jornalista aceitou e a partir de então, nem um único dia se passou sem que eles tenham se encontrado, se falado, se amado. Até que, sem perceberem, já estavam completamente apaixonados, envolvidos, enlaçados. Até que, sem entenderem, as fórmulas dele se enroscavam nas gravações dela…

A partir daí são planos, projetos, sonhos, novas sensações que se transformam todos os dias, que se renovam a todo instante. Na busca pelo texto perfeito, na busca pela alquimia que transforma em ouro eles se constroem, realizam e sentem que a cada dia que passa estão mais vivos do que quando começaram a fazer parte desse mundo. Falando em mundo, diz a lenda que havia um mundo tão fantástico que despertava os mais profundos sentimentos e pensamentos curiosos de quem ouvia falar ou a quem era permitido enxergar por uma pequena brecha. Mas isso é assunto para um outro texto, uma outra página, uma outra história.

Às minhas amigas

amigas

Sei que não estou tão presente na vida de vocês. Sei que reclamam que eu não estou sempre lá. Sei que gostariam que eu pudesse vivenciar mais, ouvir mais, ter mais tempo. Sei que estou um tanto quanto displicente…

Mas preciso que saibam que o meu amor por vocês é incondicional. Não há tempo que apague, não há problema que afaste, não há situação que abale. Tenho todas as melhores lembranças que alguém pode ter de amigas tão queridas, sinceras e verdadeiras como as que eu possuo. Esse é um verdadeiro tesouro que carrego comigo, estampado no peito e também guardado dentro do coração, costuradinho em uma caixinha que abro toda vez que bate a saudade.

Não posso esquecer do momento em que me vi perdidamente sofrida por uma das primeiras dores de amor e recebi apoio de uma amiga que não sabia o que fazer com minhas lágrimas. Ela não era muito dada à grandes demonstrações de afeto, mas foi o porto mais seguro que eu pude atracar naquele fim de semana sombrio. Ou o momento de grande alegria ao descobrir que passara no vestibular e, finalmente, iria estudar à noite e poderia ficar mais livre da vigilância paterna. E quando discutia minhas elucubrações literárias e os grandes períodos da História… Conversas que me fazem falta. Conversas que me ajudaram a ganhar bagagem para discussões e debates acadêmicos e filosóficos.

Amigas que me apoiaram em momentos de grandes loucuras. Sejam elas de amor, causadas por uma dor ou apenas da mais alta vontade de ser feliz sem barreiras, sem cortes ou censuras. Saber que poderia chorar no ombro e dali a cinco minutos estar rindo como uma louca e ir ao shopping tomar um sorvete. Aliás, momentos divertidos nos shoppings desta cidade não nos faltam… Amigas que acompanharam os primeiros beijos, as primeiras paixões e sobrevivem até hoje, embora um pouco mais afastadas, até o encontro do grande amor. Amigas que foram pombo-correio e cupido. Amigas que ajudaram o coração a percorrer o caminho que ele deveria. Que emprestaram casa, ouvidos e até o ombro da mãe. Imaginem!

Amigas das quais eu fui banco, fiel depositária, casa de câmbio e financeira. Amigas que me levavam à loucura pedindo cobertura. Amigas que se aproveitavam da carinha de confiável que eu tinha perante às mães – sim, eu tive essa carinha um dia! – e me usavam sempre como fachada para as suas aprontações. E isso quando não me levavam juntas! E posso dizer, que aprontações… Mas era tanta diversão que eu ria até a barriga doer. Ria da própria risada delas. Ria do bocejo na fila para comprar passes estudantis em nossos distantes 15 anos. Você já percebeu como o bocejo é contagiante? Nós também não, até aquele dia em que bocejávamos e ríamos como loucas numa fila quilométrica. Amigas que fazem parte da sua vida desde pequeninas. Que dividiram grandes sustos que a vida pregou e que começam a voltar ao convívio mais presente.

Amigas que eram só a parte alegre da vida. Momentos nos quais sorríamos e éramos felizes e louras. Elas! Pois eu nunca tive, e espero nunca ter, essa vontade. Agora estão morenas, graças às preces atendidas. Amigas que andavam ao sabor do vento, indo sempre aos melhores eventos. Churrascos, festas, boates e onde mais o convite pudesse alcançar. Grandes, bonitas, felizes. Não havia como não chamar a atenção… Muita alegria, mas também fonte de muito apoio em momentos de difícil decisão. O pontapé que faltava alguém dar para que eu fizesse algo que sabia necessário, embora difícil e dolorido.

Amigas que se auto-denominavam “cavaleiras do apocalipse”. Veja lá se isso é título que alguém se dê! Mas era assim que nos portávamos. Transitávamos em todos os grupos, todas as trupes, todas as tribos. Sempre em nosso pedestal, do qual só descíamos se achássemos que valeria muito a pena. Mas sempre amigas dos que se aproximavam para quebrar o vidro que nos envolvia. Sãs em meio a tanta loucura. Tranquilas em meio a tanto exibicionismo. Um tanto maluquetes, mas muito saudáveis em nossas atitudes.

Amigas que se esconderam numa concha fechada. Tão fechada que nem pé-de-cabra resolve. Amigas que não sei mais se estão bem, se são felizes ou tristes, se querem mais ou se estão contentes. Amigas que respeito e gosto, mas lamento estarem tão distantes. Amigas que sinto falta de compartilhar alegrias e tristezas, conselhos e pagações de sapo. Coisa que, aliás, sabemos fazer muito bem!

Amigas que foram mais presentes no passado, mas que nunca deixam de se fazerem lembradas. Um telefonema, uma mensagem no msn ou um cartão postal de um canto do mundo qualquer. Amigas que viveram situações incomuns, com as quais dividi confidências depois, sem saber que haviam vivido a mesma história que eu. Amigas que são loucas, que jogam tudo para o alto, mas que se empenham na busca da felicidade plena. Com receios, com medos, mas com muita coragem e vontade de que tudo dê certo. Amigas fortes, leves de alma e carregadas de poesia como um abacateiro em flor. Amigas autênticas, simples e que não conseguem deixar para amanhã o encontro com os sonhos e projetos.   

Amigas que encontrei mais tarde. Em momento mais maduro. Maduro? Que nada! Sempre há espaço para as insanidades. Amigas que conheci de forma torta, mas que se mostraram feitas na medida para nossa amizade. Amigas com as quais me diverti em grupo, em dupla, em trio. Festas, viagens, baladas. E sempre com a busca do grande amor. Hoje sei que isso é o que uma mulher de verdade quer encontrar na vida. Todas queremos ser amadas. Todas queremos amar sem limites. Amigas com as quais desmascaramos namorados e demos conselhos para sofrer menos. “Ops, respeita a polícia!’, “Cachorrões fora!” Muitas risadas e algumas lágrimas, e nós seguimos pela vida na busca incessante de amor, respeito e consideração.

Amigas que encontrei no campo das idéias. Que nem sei em que momento conheci. Mas que dividiram parte importante da minha história. Amigas com as quais tive debates no campo da comunicação, das idéias de ter um grande ideal. Que entraram pouco na minha vida, mas que conquistaram um grande espaço no meu coração. Amigas das quais respeito a opinião e quero ter ao meu lado nos grandes projetos que ainda pretendo desenvolver. Amigas que, inesperadamente, me viram vivenciar uma paixão relâmpago, me ajudaram a enxugar as lágrimas e fizeram enxergar-me como um mulherão. Amigas que também vibraram ao saberem do encontro com o grande amor que veio logo em seguida.

Amigas que passaram e não mais estão, amigas que tem suas histórias boas em minha existência, amigas que estão perto, amigas que estão longe. Obrigada por me encontrarem. Por fazerem parte do meu mundo. Por me ajudarem a construir minha longa colcha de retalhos da amizade, da sinceridade, da verdadeira transparência da qual é feito esse sentimento tão puro e honesto que carregamos juntas. Muito obrigada!

Flávia Gomes

Retomada

corações

A brisa da noite chega
O vento balança de leve
os cabelos da moça na rede
trazendo o cheiro do sentimento
que há muito se julgava esquecido.

Ela sorri,
ajeita o corpo em um leve balançar
e começa a pensar
em como era a vida antes dele.

Não consegue nem se lembrar!
Os melhores pensamentos,
as melhores lembranças,
os melhores sonhos e
as melhores felicidades
vieram com ele.

Um colo que a completava,
protegia e dava coragem para a vida.
Um abraço que a envolvia
e trazia a certeza de que nada poderia dar errado.
Um sorriso que era a pura
esperança traduzida em amor.

Amor, o único sentimento que
a fazia se sentir mulher, amada,
com a certeza de que a vida é simples.
Com a certeza de que o amor só precisa ser vivido
para nos fazer nunca querer deseja ficar sem amar e ser amada.

Flávia Gomes

Novamente

casal1Depois de um longo inverno
Ela amava novamente
Depois de um tempo lento
Ela sorria novamente
Depois de uma primavera sem flores
Ela sabia que era hora de se abrir

De se dar, de se completar, de viajar.
Por mundos novos,
Horizontes desconhecidos,
Mares claros e profundos.

Profundos como aquilo que ela sentia.
Claros como o sentimento que ali vivia.
Azuis, de um azul tão forte que doía de tão bonito

Poesia, coração em verso e prosa
Sentimento eterno vagando por aquele corpo
Estouro de champanhe cheirosa e borbulhante
Gosto de inconsequência no céu da boca

Sim, era ela que seguia, que vivia, que sentia.
Era um vento leve, uma brisa que soprava ao sul
Mas sabia também ser um vendaval que vem com força e urgência
Urgência de estar junto, de estar perto.

Era urgente sem ser desesperado.

Flávia Gomes

Só enquanto eu respirar…

respirar12

Pensamentos completamente desconexos. Sentimentos profundamente remexidos. Coração assustado e curioso. Encontros inexplicáveis, pessoas exatamente da sua medida, do seu tamanho, do número que você queria encontrar. De um número que não se acha em qualquer lugar. De uma medida assim tão desmedida. Louca, insana de verdade. Mas boa, gostosa de sentir, de experimentar, de viver.

De um tamanho que provoca boas inspirações. De vontade de estar sempre juntos. Uma roda que gira loucamente no ar. Trazendo mil anos a mil. Um fim, um começo. Tudo tão perto, tudo tão junto. Os desencontros e encontros mais loucos que a vida oferece. Troncos de árvores que achavam que não seriam encontrados. Estão todos sendo arrancados. Um a um. Dia a dia. Minuto a minuto.

Sementes que acabaram de ser plantadas, mas que já se mostram como arbustos fortes e prontos para florir. Pedaços de pessoas que um dia já foram e agora querem ser muito mais. Pequenos pedaços que agora têm vontade de crescer, de ser o que nunca foram, de ser o que sempre quiseram. Sem máscaras, sem jogos, sem dúvidas.

Quando acontece assim, não adianta querer fugir, deixem acontecer. Entreguem-se ao doce desejo e volúpia da paixão. Deixem que evolua para o que for maior. Mistério mágico que vocês nunca saberão o segredo, o ponto exato onde se transformou. Um salto no escuro, um mergulho em águas profundas. Um sorriso leve e safado no rosto e no coração de quem achou que tão cedo não voltaria a sentir. Mas ainda bem que essa vida é louca e os presentes não escolhem hora para chegar. E aí, vai aceitar?

Flávia Gomes

Aqueles…

Martine Franck-Magnum Photos

Martine Franck-Magnum Photos

Às vezes a vida é mesmo engraçada… Prega umas peças na gente! Traz para perto quem estava longe, leva para longe quem estava perto. Pessoas vão e vêm em nossas vidas. São partes de momentos, de situações, de uma ou algumas estações. Algumas duram mais que dois verões, outras se acabam na queda das folhas de outono ou desaparecem no frio do inverno. Algumas têm cheiro de primavera. São coloridas, vivas, de uma beleza efêmera dentro da gente. Outras têm cheiro de mar, de água salgada, de maresia, sabor de corpos ardendo no calor do verão.

De qualquer maneira, penso que a vida seria muito enlouquecedora se conservássemos todos ao lado. Não haveria espaço para tanta gente, tantas formas de pensar, tantas vontades e tantos desejos. Penso mesmo que as pessoas duram em nossas vidas o tempo que tem que durar. Mesmo que a gente não entenda isso assim tão fácil. Os seres humanos não são lá chegados a perdas, a despedidas. Mas também, para quê se despedir? As pessoas poderiam ir embora simplesmente. Assim… deixando um rastro de perfume e a certeza de que não voltam mais. E a gente ficaria com aquele cheiro durante algum tempo, até que ele fosse apenas a lembrança de um tempo bom que passou.

Mas ainda bem que existem as pessoas eternas. Tá, tudo bem, ninguém é eterno. Mas existem aqueles que você sabe que sempre estarão lá. Aqueles que passaram por tantas estações que a gente nem viu passar. Aqueles que quando a gente se junta não acaba de rir com tanta história para contar. Aqueles com os quais vivemos aventuras, aprontamos loucuras, choramos de tanto rir, e também vivemos algumas tristezas. Aqueles que sempre trazem a luz do sol pra dentro da nossa alma. Aqueles que são o próprio sol dentro de nós. Os que nos fizeram aprender e os que nos escutaram ensinar.

Tem aqueles que deixaram sua marca em nosso livro pessoal. Que toda vez que a gente quer se lembrar, abre naquela página às vezes tão mal escrita, rabiscada, parecendo agenda de adolescente. Mas que traz alguns dos momentos mais incríveis que vivemos. Afinal, a gente lembra bem porque foi que não deu para escrever com mais tempo ou cuidado. Ou então passamos horas lendo com carinho uma ou duas páginas escritas com esmero e atenção. Que a gente cuida para que nunca se rasguem ou os escritos nunca se apaguem.

Bom mesmo é poder voltar de vez em quando e ler essas páginas, ordenar os bilhetes, reencaixar  as experiências. Sem medo de reviver, de voltar atrás, de ter orgulho da história que escrevemos. Saber que ali está o melhor e o pior de nós. Saber que aquelas pessoas levaram um pouco do que temos, mas deixaram um pouco também do que são. E todos nós, sem exceção, nos transformamos em pessoas diferentes a cada encontro e desencontro desse livro maravilhoso chamado viver. 

Flávia Gomes

Conto de uma tarde quente

Calma, gente! Os pensamentos tardam, mas não falham. Desconexos como sempre. Inspirados nas percepções, sensações e no mundo que me cerca. Espero que gostem.

Magnum Photos

Conto de uma tarde quente

Ela precisava de alguém que a tocasse. Mais ainda, de alguém que a fizesse se tocar! Não estava procurando, mas mesmo assim, achou. Ele apareceu meio de contrabando. Uma amiga precisava de companhia. Um passeio divertido e pessoas agradáveis. Apenas isso, nada mais. “Acho que das amigas que eu tenho, você é a que mais tem a ver com ele. Você é fina, gosta de coisa boa, ele também.” Risada. Agradeceu o elogio dela. Pensou um pouco e acabou cedendo. Afinal, as coisas não estavam assim tão boas e um passeio com gente interessante seria bem vindo. Era uma mulher comprometida, mas não morta, pensou. Foram ao encontro dos rapazes.

A amiga já tinha um cacho, que estava mais para uma penca. Penca de problemas que ela não enxergava. Mas quem está apaixonado fica mesmo cego, então melhor deixar pra lá. Um dia ela acaba descobrindo. O que de fato, tempos depois, aconteceu. Mas voltemos ao passeio. Chegou, olhou nos olhos, gostou do que viu. Foi muitíssimo bem tratada. Ele parecia ser mesmo diferente. Alguns goles de vinho, uma boa música, um papo descontraído. Mas quem olhasse bem, poderia perceber uma forte energia no ar. Coisa que nem querendo, se consegue explicar. Algo bateu logo de cara, de imediato. À medida que a conversa fluía, iam descobrindo coisas em comum, gostos parecidos, planos do que fazer ou onde ir em próximas saídas.

Às vezes as mãos dele tocavam nela. Sentia um arrepio. Primeiro era de leve, quase meio sem querer. Depois o toque era mais intenso, proposital mesmo. O clima favorecia. O olho no olho não negava. Ela não escaparia daquela situação. Foi começando a ficar preocupada. Lembrou que o marido esperava em casa. Mas o arrepio insistia em rondar a espinha. Tentou relaxar. Foi em vão. Os olhos dele eram tão penetrantes que não havia como não se deixar levar. Ainda eram do mesmo signo. Forte, incisivo, sensual até debaixo d’água. Isso! Água. Como não pensou antes? Era um bom jeito de espantar todo aquele calor que subia pelo corpo. “Vou dar um mergulho”, anunciou. “Isso, vai lá, você vai gostar”, ele incentivou. Fez mais. Ciceroneou. Era o dono do pedaço e quis deixar a moça confortável, à vontade.

A água estava deliciosa. Mais fria que o corpo dela, que àquela altura, desejava o que não ousava pensar. Mas ele sabia o que ela sentia. Era o que ele sentia também. Vontade incontrolável de chegar mais perto, de respirar junto, de se encontrar num beijo quente e apagar o que estava queimando. Entrou na água logo depois dela. Agora não tinha mais para onde correr. Ele veio como quem não quer nada, mas querendo tudo o que pudesse ter. Foi chegando cada vez mais perto, até que colou. Colaram em um beijo sem precedentes. Sensualidade à flor da pele. Muita química para deixar arder. Pensou naquele que a esperava. Mas que nada! Ele não andava lá merecedor de tais pensamentos em horas tão inconvenientes. Lembrou das poucas e boas que a havia feito passar. Era o que faltava para se entregar de vez àqueles lábios profanos que lhe invadiam a boca de um jeito tão único, tão urgente.

Sentia que ele tirava dela, coisas que ela achava esconder. Coisas que ela pensava estarem guardadas. Agia como se dissesse que ela era uma MULHER, não apenas com o “M” maiúsculo, mas com a palavra toda, e que, fora dali, não estava sendo tratada como tal. Descobriu coisas que ela acreditava guardadas no fundo de gavetas mofadas e empoeiradas pelo tempo, pelo desuso. Naquele fim de tarde incrível, trouxe à tona a essência que ela guardava trancada em um baú. Lacrado por dores, acomodações e desamores.

Ele tinha mãos teleguiadas. Não eram mãos de polvo, como eram as da maior parte dos homens. Só caminhavam onde a tocava, onde a fazia sentir. Ele falava coisas que ela precisava ouvir. E não soavam como cantadas. Tinham a autoridade de um espelho que só mostra a verdade. Uma verdade que ela nem lembrava mais onde existia. Até que as palavras dele começaram a fazê-la corar. O calor já havia subido demais, alcançava o último grau. Estavam tão quentes que um termômetro indicaria febre, na certa. Ela gemia debaixo de suas mãos. Baixinho, pra ninguém ouvir. Disfarçadamente, para ninguém perceber. Foi levada ao êxtase. Chorou. Não acreditava que depois de tanto tempo comendo arroz e feijão, estava provando um prato tão exótico e apimentado. Mas não quis entregar os pontos. Segurou do jeito que pôde.

Na hora de ir embora, ele deu o telefone dele para ela. Presunção? Não. Horas de vôo. Desconfiança de que ela não pudesse receber chamadas a qualquer instante. Quase uma adivinhação. Aquele telefone ficou gravado no celular durante um longo período. Mas ela nunca ligou. Havia gostado tanto, que o medo a impediu de viver a história que se desenhava. Voltou para casa tão feliz e assustada que naquela noite foi deitar cedo na esperança de que aquela doce sensação não fosse embora tão rápido. Ficou com aquela tarde quente gravada na pele. Sabia que se mexesse naquele vespeiro estaria perdida de vez. Acabou voltando à vida normal aos pouquinhos. Mas as palavras nunca deixavam de martelar sua auto-estima. Sempre que queria lembrar, buscava aquele número no celular. Até que um dia se tocou. Mas… isso já vai ser história para um outro conto, para uma outra página, para uma outra tarde.

Flávia Gomes

Especiais

Mudando totalmente o papo. Bem, talvez nem tanto assim. Afinal, os sentimentos fazem parte da mesma raiz. A nossa! A de cada um de nós. Únicos e exclusivos seres no mundo. Tem uma música, que eu acho incrível, que é Boa sorte/Good Luck da Vanessa da Mata e do Ben Harper. Todo mundo diz que eu sou mesmo doida, porque a música fala de um tremendo pé na bunda (vixe, e eu disse que ia mudar o tema!), mas eu adoro! Especialmente a versão remixada. Fazer o quê? Acho que não aprecio mesmo coisas fáceis e comuns… O fato é que a música tem uma frase espetacular, que diz que existem muitas pessoas no mundo e a gente sempre acha que aquela que se foi era a mais especial, mas no mundo, há muitas especiais. A frase aparece em dois momentos, em português e em inglês, mas eu prefiro a dita cuja em inglês. Além da voz do Ben Harper ser mais sexy, ele explica mais o que a frase diz. Olha aí: “There are so many special / People in the world / So many special / People in the world / In the world”. E nem vem que eu não vou traduzir. Prefiro na língua dos bretões e ponto.

Isso não é uma beleza? Existem tantas pessoas especiais no mundo. E o bonito da vida é estar sempre descobrindo isso. Uma pessoa vai, mas outra pode aparecer. Quando você menos espera (aliás, cá pra nós, aquelas que aparecem quando a gente nunca espera é que costumam ser as melhores!), dobra a esquina, dá um olhar mais demorado e pode ser alguém. Ficando em casa curtindo fossa é que nunca vai mesmo achar nada, nem ninguém. O mais sábio nessa nossa vida louca é a gente se permitir. Deixar as coisas acontecerem no nosso caminho. Claro que se não for bom, o certo mesmo é chutar pra bem longe. Ninguém aqui está pedindo que você empurre nada com a barriga. Deus nos livre disso!

E eu não estou aqui apenas falando de homem x mulher. Amigos são pessoas especiais (alguns, é certo, só trazem problemas, mas podem ser bons para quando você quer falar dos seus problemas). Família boa, por perto, compreensiva, que dá espaço, também é feita de pessoas especiais. Gente que não sufoca, que aceita, que entende, mais pessoas especiais. Alguns amores que se foram também o são. Mas outros que estão chegando também podem se tornar. É só a gente deixar, se permitir. Se veio e é bom, cabeceia ou chuta para o gol. Ficar parada e levar um olé é que não dá pra engolir!

Lá fora tem sol, lua, estrela, lago paranoá, parque da cidade, rua, amigos, baladinhas e baladonas, drinks – que em tempos de lei seca estão meio escassos, mas nem por isso proibidos – música pra dançar, pra ouvir e pra cantar, lugares especiais, pessoas especiais e o que mais você se permitir descobrir e encontrar. Aqui dentro também é legal. Tem descobertas nossas, só nossas, tem momentos introspectivos, papos com amigas, quando as irmandades se juntam, então… Tem apoio, trocas, confidências que fariam corar até o libertino Marquês de Sade, dicas, truques e conselhos mais que úteis, assim como também os completamente inúteis.

Tem vida! Onde quer que você vá. Onde quer que deseje ficar. Descubra seu momento e siga a sua estrela. Cada um de nós tem uma. Cabe a você dar o brilho que estiver a fim de dar. Cabe a você polir ou deixar enferrujar. Acenda sua luz, solte os bichos, cante em voz alta as suas músicas preferidas. E, finalmente, tenha a certeza de que VOCÊ é a única pessoa que importa nessa vida. Longe de soar egoísta, mesmo com meu lado escorpiano aguçado, mas já vivi o suficiente para entender que se você não está bem aí dentro, nada, nem ninguém estarão bem ao seu redor. Isso se chama energia. Eu não sei como ela funciona, mas que existe, ah, isso existe. Coloque a sua pra girar!

Flávia Gomes

Pensamento que não é meu, mas é quase como se fosse! rs

Nunca postei pensamentos dos outros por aqui, mas sempre tem uma primeira vez pra tudo! Recebi esse texto por e-mail e achei muito bom. E como estamos em fase de encerrar o assunto (Última variação sobre o mesmo tema que o diga…), divirtam-se!

SOFRER POR AMOR: LUXO OU LIXO?

Outro dia me perguntaram como se cura dor de amor. Ah, gente, não sei. Realmente não sei. Me desculpem. Se existisse fórmula seria fácil. Mas não tem. E a única coisa que a gente não quer saber é de fórmulas quando o coração está em pedaços. Não adianta alguém falar ‘vai passar’ porque a única resposta que me vem nessas horas é uma pergunta: QUANDO? E ninguém sabe o tamanho do tempo e a gente acha que o mundo acabou, que o amor é marketing, enxerga qualidades onde a pessoa (aquela ingrata!) não possui e se vê num questionamento interior que não tem fim (e muito menos respostas): por quê? Onde errei? E outras que nem preciso enumerar porque são sempre as mesmas. Só muda o objeto do amor e a intensidade do sentimento. Você pode ter conhecido a pessoa há uma semana mas tem certeza que é o amor da sua vida, a razão de tudo, a tampa da sua panela. Ah, então tá. E as amigas te consolam, a maquiagem borra e todo mundo come chocolate junto, enquanto a frase que mais odiamos ecoa no ar ’se o sujeito não te quer é melhor você ficar sem ele’. Ai, hora do choro aumentar! Pra amenizar, alguém diz que a atual do cara é uma sonsa. Han? Como assim? Você vai dizer: antes tivesse me trocado por alguém melhor do que eu! Estou certa? Pois é. E você sofre. Faz drama. Drama, não, dramalhão. Afinal você ama aquele filho-da-mãe de uma figa que deixou seu orgulho ferido e sua auto-estima no chão. E a gente esquece os defeitos dele, esquece que ele tem manias estranhas e esquece também que, no fundo, não via muito futuro pra vocês dois. Verdade? Não, nessas horas nada é verdade. Sofrer por amor cega, dá uma super inspiração e deixa nossas mães preocupadas, essa é a única verdade. Eu já tomei pés-na-bunda consideráveis e acho que se a Jeniffer Aniston pode, quem sou eu pra fugir da regra. Já me disseram NÃO e nem por isso sou menos inteligente, menos legal, menos louca, menos linda, menos tudo, menos nada. A única coisa que tenho certeza é que eu NÃO ERA a pessoa certa pra aquele cara. Pelo menos naquele momento. Olha que simples. E sem aquela teoria furada de que o moço tem medo, algum trauma de infância e signo complicado. Quando a gente quer de verdade – meninas, acordem! – a gente vai até o inferno, desfaz casamentos, paga pra ver, apela para a baranguice e canta ‘Baby, come back’ debaixo da janela. Porque o amor é brega. E disso ninguém escapa. Então, vamos aproveitar nosso minuto de lucidez (enquanto não caímos na teia do amor de novo) e aprender de uma vez por todas: não é pra gente se achar um lixo quando um amor acaba. Não é pra gente imaginar que a atual do seu ex é perfeita (acredite: elas nunca são). E definitivamente não é pra gente confundir orgulho ferido com amor. Afinal a gente não vai amar uma pessoa que não ama a gente. E ponto. p.s: o sofrimento é inevitável, mas o luxo é opcional.
Texto: Fernanda Mello

Última variação sobre o mesmo tema

Um encontro inusitado
um coração assustado
uma vontade de deixar para trás o passado

um monte de coisas na bagagem
um desejo de ser tudo de verdade
uma vontade louca de nunca acabar essa viagem

um vendaval que sopra lá fora
e aqui dentro tudo tão natural
como não chorar sem sentir o gosto do sal?

força para seguir adiante
descobrir onde o medo se esconde
e rezar pra não ter essa dor como acompanhante

viver o que for bonito
acreditar no que for sincero
e ser feliz, porque ser triste…
ahh, isso eu não admito!

Flávia Gomes