Conto de uma tarde quente

Calma, gente! Os pensamentos tardam, mas não falham. Desconexos como sempre. Inspirados nas percepções, sensações e no mundo que me cerca. Espero que gostem.

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Conto de uma tarde quente

Ela precisava de alguém que a tocasse. Mais ainda, de alguém que a fizesse se tocar! Não estava procurando, mas mesmo assim, achou. Ele apareceu meio de contrabando. Uma amiga precisava de companhia. Um passeio divertido e pessoas agradáveis. Apenas isso, nada mais. “Acho que das amigas que eu tenho, você é a que mais tem a ver com ele. Você é fina, gosta de coisa boa, ele também.” Risada. Agradeceu o elogio dela. Pensou um pouco e acabou cedendo. Afinal, as coisas não estavam assim tão boas e um passeio com gente interessante seria bem vindo. Era uma mulher comprometida, mas não morta, pensou. Foram ao encontro dos rapazes.

A amiga já tinha um cacho, que estava mais para uma penca. Penca de problemas que ela não enxergava. Mas quem está apaixonado fica mesmo cego, então melhor deixar pra lá. Um dia ela acaba descobrindo. O que de fato, tempos depois, aconteceu. Mas voltemos ao passeio. Chegou, olhou nos olhos, gostou do que viu. Foi muitíssimo bem tratada. Ele parecia ser mesmo diferente. Alguns goles de vinho, uma boa música, um papo descontraído. Mas quem olhasse bem, poderia perceber uma forte energia no ar. Coisa que nem querendo, se consegue explicar. Algo bateu logo de cara, de imediato. À medida que a conversa fluía, iam descobrindo coisas em comum, gostos parecidos, planos do que fazer ou onde ir em próximas saídas.

Às vezes as mãos dele tocavam nela. Sentia um arrepio. Primeiro era de leve, quase meio sem querer. Depois o toque era mais intenso, proposital mesmo. O clima favorecia. O olho no olho não negava. Ela não escaparia daquela situação. Foi começando a ficar preocupada. Lembrou que o marido esperava em casa. Mas o arrepio insistia em rondar a espinha. Tentou relaxar. Foi em vão. Os olhos dele eram tão penetrantes que não havia como não se deixar levar. Ainda eram do mesmo signo. Forte, incisivo, sensual até debaixo d’água. Isso! Água. Como não pensou antes? Era um bom jeito de espantar todo aquele calor que subia pelo corpo. “Vou dar um mergulho”, anunciou. “Isso, vai lá, você vai gostar”, ele incentivou. Fez mais. Ciceroneou. Era o dono do pedaço e quis deixar a moça confortável, à vontade.

A água estava deliciosa. Mais fria que o corpo dela, que àquela altura, desejava o que não ousava pensar. Mas ele sabia o que ela sentia. Era o que ele sentia também. Vontade incontrolável de chegar mais perto, de respirar junto, de se encontrar num beijo quente e apagar o que estava queimando. Entrou na água logo depois dela. Agora não tinha mais para onde correr. Ele veio como quem não quer nada, mas querendo tudo o que pudesse ter. Foi chegando cada vez mais perto, até que colou. Colaram em um beijo sem precedentes. Sensualidade à flor da pele. Muita química para deixar arder. Pensou naquele que a esperava. Mas que nada! Ele não andava lá merecedor de tais pensamentos em horas tão inconvenientes. Lembrou das poucas e boas que a havia feito passar. Era o que faltava para se entregar de vez àqueles lábios profanos que lhe invadiam a boca de um jeito tão único, tão urgente.

Sentia que ele tirava dela, coisas que ela achava esconder. Coisas que ela pensava estarem guardadas. Agia como se dissesse que ela era uma MULHER, não apenas com o “M” maiúsculo, mas com a palavra toda, e que, fora dali, não estava sendo tratada como tal. Descobriu coisas que ela acreditava guardadas no fundo de gavetas mofadas e empoeiradas pelo tempo, pelo desuso. Naquele fim de tarde incrível, trouxe à tona a essência que ela guardava trancada em um baú. Lacrado por dores, acomodações e desamores.

Ele tinha mãos teleguiadas. Não eram mãos de polvo, como eram as da maior parte dos homens. Só caminhavam onde a tocava, onde a fazia sentir. Ele falava coisas que ela precisava ouvir. E não soavam como cantadas. Tinham a autoridade de um espelho que só mostra a verdade. Uma verdade que ela nem lembrava mais onde existia. Até que as palavras dele começaram a fazê-la corar. O calor já havia subido demais, alcançava o último grau. Estavam tão quentes que um termômetro indicaria febre, na certa. Ela gemia debaixo de suas mãos. Baixinho, pra ninguém ouvir. Disfarçadamente, para ninguém perceber. Foi levada ao êxtase. Chorou. Não acreditava que depois de tanto tempo comendo arroz e feijão, estava provando um prato tão exótico e apimentado. Mas não quis entregar os pontos. Segurou do jeito que pôde.

Na hora de ir embora, ele deu o telefone dele para ela. Presunção? Não. Horas de vôo. Desconfiança de que ela não pudesse receber chamadas a qualquer instante. Quase uma adivinhação. Aquele telefone ficou gravado no celular durante um longo período. Mas ela nunca ligou. Havia gostado tanto, que o medo a impediu de viver a história que se desenhava. Voltou para casa tão feliz e assustada que naquela noite foi deitar cedo na esperança de que aquela doce sensação não fosse embora tão rápido. Ficou com aquela tarde quente gravada na pele. Sabia que se mexesse naquele vespeiro estaria perdida de vez. Acabou voltando à vida normal aos pouquinhos. Mas as palavras nunca deixavam de martelar sua auto-estima. Sempre que queria lembrar, buscava aquele número no celular. Até que um dia se tocou. Mas… isso já vai ser história para um outro conto, para uma outra página, para uma outra tarde.

Flávia Gomes

7 Respostas

  1. Cara, demorou mas tá aí. *———–*
    Pena que ainda é pouco. :/

    Enfim… u_u
    Han, han. Adorei o texto, cara.
    Pelo menos para mim, textos assim são aqueles tipos de histórias que podem acontecer muito bem com qualquer um. E, geralmente acontecem mesmo.

    Adorei, adorei. Espero por mais. :3
    Se cuida. ;***

  2. Uau!!!
    Que conto delicioso…
    Fica a dúvida se é real ou fantasia. Gostei demais.
    É uma puta história!
    Passeio por aqui há algum tempo, mas nesse eu quis comentar.
    Não sei, acho que o clima contagiou.
    Parabéns, você é sabedora da arte de fazer dos sentimentos, palavras.
    Show!

  3. Ai, como eu queria viver uma história assim…
    Adorei!
    Sabe que seu conto é tão descritivo, tão sensorial, que enquanto lia, eu ficava pensado e imaginando as cenas na cabeça.
    Se eu senti, imagina essa mulher do conto!
    Parabéns, continue sempre, como disse o amigo lá de cima, queria 3 por dia!!!!!
    Bjinhos

  4. :D
    É difícil manter um blog com uma pessoa só, pelo menos pra mim. Sofro de bloqueios mentais 24/7. :/
    Só mais um? *Tri cobrando* huahuahua x)
    Enfim… Irei esperar. *–*

    ;***

  5. Beautiful, beautiful, beautiful!!!!!

  6. Li de novo, mas já falei o q tinha q falar… show!
    bjos

  7. Cara Flávia,

    Compreendo a sensação da redescobeta…esse conto com certeza abre a mente para os sentidos e posso afirmar que consegui sentir a mulher dessa tarde ardente em minha madrugada.
    Ótimo texto,
    Parabéns

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