Sou preto. Preto e branco. Um contraste entre a ausência de cor e aquela que reflete todas as cores. Não vejo a vida. Vejo apenas nuances de um cinza que choram-me nos olhos. Tenho sonhos. Sonhos de coisas que não vejo. Mas há um sonho… Que me prendeu em seus tons coloridos de um modo que eu nunca antes havia imaginado.
Imagino um sonho sem limites onde estou presa por uma cor. Não, não é uma prisão! É apenas uma cor que me fascina, me domina. Vejo um alucinante céu azul. Me perco tanto no azul do céu que, ao abrir os olhos, me vejo em um quarto escuro, azul muito escuro. Aquela escuridão me amedronta, me apavora. Começo a ter ilusões. Animais coloridos sobrevoam minha cabeça, me derramam todas as cores na alma. Azul, amarelo, marrom, verde, vermelho… vermelho… vermelho.
Passo agora a um mar de sangue com dentes brancos cravando-se em minha carne. Línguas vermelhas lambendo-me o pescoço e um grito azul de terror invade o negro.
Negro! O negro da noite. Mas não é o preto que me acostumei a ver. É agora o preto dos olhos daquele moço bonito, em cujo corpo colorido quero me prender.
Flávia Gomes
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