Era mais um daqueles sonhos. Daqueles que quando se está sonhando, não se tem vontade de acordar. Daqueles que põem a vida em risco quando se precebe que a realidade está longe, muito distante. O despertador já tocava. Relutantemente abriu os olhos, fitou o teto do quarto. A luz começava a inundar o ambiente.
Ainda sentia o gosto de sal na boca. A pele ainda queimava pela ardência do toque entre os corpos. O cheiro da luxúria estava impregnado nas narinas. Ainda havia um calor fluindo por entre as pernas. Levou a mão ao travesseiro ao lado. Frio. Tateou por entre os lençóis. Gelado.
“Então foi mesmo um sonho!” Decepção. Reuniu coragem para levantar. Foi ao banheiro lavar o rosto. Pensou na noite passada. Mais especificamente no sonho da noite passada. Resolveu tomar um banho para acordar logo de vez e mandar para o ralo aqueles pensamentos inebriantes.
Uma ducha fria nas idéias afastaria aqueles pensamentos. Dia cheio. Muita coisa para resolver. “Ui, frio demais!” Água morna também acorda. Coragem!
Mas aquilo parecia chiclete barato. Grudento como aquelas musiquinhas pop descartáveis que entram na nossa cabeça e nos acompanham nos mais inesperados momentos. Era só fechar os olhos que o cheiro já vinha invadir o ar. “Olhos abertos! Concentre-se no seu dia!” Ordenava para si. As tarefas precisam ser revistas, lembradas, planejadas.
Tentava se programar na esperança de não pensar mais no sonho. “Hoje é dia de pagar o aluguel. Ah, também preciso comprar um par de sapatos novos. A festa para receber o presidente da empresa é daqui a dois dias. Droga, preciso também de um bom perfume. O vidro daquele importado já não dá nem mais para o cheiro.” Humm… Cheiro! Agora não é preciso nem mesmo fechar os olhos. Aquele cheiro insiste em invadir a mente.
Debaixo d’água, começou então, a se render. Logo o gosto de sal tomou conta do paladar. Pele. Todos aqueles sentimentos rondavam a cabeça. Entorpeciam os sentidos. Mudavam o propósito da chuveirada. O sonho quase podia ser tocado.
Fechou os olhos, entrou na brincadeira. Sentiu o calor do outro corpo. As mãos exploravam cada centímetro. Sentia o sexo começar a pulsar. Desejo. A imagem firme na mente. Tinha rosto, cor, nome e sobrenome. Ouvia palavras sussuradas ao ouvido. De elogios fáceis ao baixo calão. A excitação aumentava. A temperatura do corpo acompanhava.
A respiração ofegante. O tremor que começava a invadir. As pernas bambas. O coração acelerado. Abriu os olhos. Enxergou o maior sorriso do mundo. Aquele sorriso era inigualável. Riu junto. Gargalhou. Se deixou invadir por aquela sensação de felicidade.
Desligou o chuveiro. Enxugou o corpo. Saiu de peito aberto. Seguiu em frente com aquele sorriso grudado na cara, como que gritando a satisfação de um presente matinal.
Flávia Gomes
Arquivado em: Meus pensamentos | Etiquetado: acordar, banho, chuveirada, desejo, noite passada, presente, sonho