Ele sonhava com o futuro. E se contentava em se esconder no presente. Mas todos os dias se via preso ao passado. Um passado colorido. Uma história psicodélica. Uma mulher extasiante. Que o havia tirado da monotonia. Uma vida tão pequena, tão minúscula, uma vidinha. Ele que nunca antes havia sonhado, nunca antes havia pisando nas nuvens, agora caminhava com chinelos de algodão.
Com ela, ele amou loucamente, viveu intensamente. Atravessou a cidade, rasgou o coração, enfrentou o medo. Curou a depressão, toda a falta de ação, e até a precoce ejaculação. Foi homem, como nunca antes havia sido. Ardeu em camas de motel, banco traseiro de carro, apartamento de amigos, parques, gramados e jardins da cidade. Correu na areia da praia, venceu o medo de lugares altos, até aprendeu a gostar de tatuagem. E de mulheres avançadas também. Dormiu suado de amor, ouviu o barulho da chuva no telhado, acordou sorrindo e premiado, madrugou com o canto dos pássaros.
Todos os dias reservava um momento para pensar nela. Ela que o havia impregnado de coragem, confiança, amor-próprio. Pela primeira vez ele tomou uma decisão, foi homem e fez o que sempre soube que devia fazer.
Desfez a família, cortou os laços. Construiu uma casa, comprou móveis. Avisou os amigos. Preparou o ninho. Tudo para ela. Aquela que o deu coragem, aquela que mexeu com o mais profundo que havia nele.
Esperou… Contra todas as previsões, ela não foi. Era o maior medo dele. Chorou, gritou, esperneou. Brigou com a vida. Mas como tudo isso não era parte da pacata natureza dele, se calou. Não lutou, não foi atrás, não buscou. Sentou e assistiu de camarote a felicidade ir embora.
Voltou à monotonia. A vida que nunca quis. O trabalho que nunca amou. A realidade que nunca desejou. Ela virou uma doce e amarga lembrança. Mas no intervalo dos dias cinzentos, nos desejos de amor profundo e até mesmo de sacanagem, no centro daqueles momentos, era nela que ele pensava. Acendia um sorriso e se animava. Fortalecia a afirmação quase como um mantra, para servir como consolo, de que aquele vendaval jamais poderia ser permanente em uma vida tão trivial.
Flávia Gomes
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Quando alguém precisa de outro alguém para ter um mínimo de felicidade, algo errado está acontecendo. A felicidade está dentro de nós. Parece clichê, mas é a mais pura verdade.
Gosto do jeito que você escreve seus textos!
Obrigada, Mantraman!! Tentei te responder, mas clico no seu nome e diz q a url não é válida, então vai por aqui mesmo. Fico feliz de poder compartilhar pensamentos desconexos assim. rs Você falou em clichê, mas o que é nossa vida senão uma interminável sucessão deles… Admiro todos os que conseguem se libertar dos clichês, eu tento sempre, uma batalha difícil, inglória e não reconhecida pela maioria. Mas espero não desistir nunca! E a gente precisa aprender a ser feliz sozinho, só aí poderemos ser felizes de verdade. Você está certo!
Flávia, meu blog é http://mantraman.wordpress.com/. Obrigado pela (bela) resposta!
” o essencial é invisivel aos olhos “