Modernidade

Par_Elliott Ewitt_Magnum Photos“E quem disse que é você que eu quero?” Perguntou ela àquela figura egocêntrica parada em frente à porta. Poderia ter sido divertido. No mínimo poderia ter sido relaxante. Nesse novo mundo de relacionamentos, ela era de vanguarda. Já nascera nessa nova era. Nova moda. Novos costumes. Não cobrava, não grudava, mas também não esperava. Ia viver a vida. Um dia de cada vez. Amizades coloridas para cada tipo de diversão.

Pedro para o cinema. Inteligente, perspicaz, humor mais refinado. Filmes, discussões, um jantarzinho, algumas taças de vinho… Fernando era a companhia perfeita para a boate. Exímio dançarino. Quando dançavam juntos, viravam sempre atração. Juliano era o parceiro de bar. Animado, bom papo e um super astral. Falavam sobre tudo, ele a fazia sentir a única – o que ela sabia que não era, mas realmente não se importava. Conversavam a noite toda, entre algumas caipirinhas ou tulipas de chopp.

Aí apareceu o Senhor Ego. Quase o super-homem. Bom em tudo. Reunia todas as qualidades. Candidato perfeito para uma boa paixão. Daquelas de cama, mesa e banho. Daquelas que dispensavam os Pedros, Fernandos e Julianos.

E foi o que ela fez. Mesmo assim, não cobrava, não grudava. Mas, inevitavelmente, passou a esperar. E enquanto isso o Senhor Ego crescia. Começou a perceber que era o dono da situação. Queria mesmo que ela o esperasse.

Mas ela era moderninha. Não poderia só esperar! Mesmo dispensando os amigos coloridos, queria estar na rua, ainda que ele não pudesse acompanhá-la. Mas isso o Sr. Ego não poderia aceitar. Num paradoxo entre moderno e machista, ele não sabia como se comportar. Adorava tanta modernidade, mas temia o que ainda não conhecia.

Em uma noite qualquer, encostou-a na parede: “Para isso dar certo, você tem que ficar mais quieta, sair comigo e ficar em casa quando eu não puder sair com você.” Ela arregalou os olhos, pensou, pensou. “Prefiro minha liberdade, você mal chegou e já quer me prender? Prefiro minhas amigas que não me enganam, você um dia vai me trair. Prefiro meu sexo sem rotina, com todo esse ego, você logo se cansará de mim.”

Bateu a porta e foi embora pensando se ia ser sempre assim. E quando ficasse mais velha? E quando quisesse ter filhos? E quando? E quando? Pensou nas amigas casadas que sempre reclamavam de tantas coisas. Sacou o telefone o mais rápido que pôde e foi escolher entre os Pedros, Fernandos e Julianos, a melhor companhia para espantar aquela crise que começava a se instalar.

Flávia Gomes

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